E se ninguém tivesse te dito?
- 17 de jul.
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de jul.
Eu me perco nos meus pensamentos
e invoco uma casa.
Imagino a casa onde você já morou.
Imagino um reencontro.
Já nos reencontramos outras vezes.
O que ficou entre nós
foi apenas um amor
e memórias do que já vivemos juntos.
Nesse encontro,
você está com a sua nova namorada,
e a gente conversa,
a gente ri.
Passa pela minha cabeça
esse questionamento,
e eu te pergunto:
Você diz ser hétero,
mas eu nunca fui uma mulher cis.
Eu até tentei ser,
mas nunca fui.
E a gente viveu tantos anos juntos.
Você já conseguiu parar para pensar
sobre o que realmente te atrai
em outra pessoa?
É simplesmente porque ela é uma mulher cis?
Porque ela tem uma xota?
O que, de fato, te atrai?
Eu me lembro
de quando estava sentada no muro,
escutando meu MP4,
as músicas mais conhecidas
de Slipknot
Ou System of a Down.
Não lembro qual delas.
Você me beijou,
dizendo que me amava
porque eu estava ouvindo aquelas músicas.
Não era porque eu era uma mulher cis.
Era porque eu estava ouvindo
uma música que você também gostava.
E eu me questiono
sobre essa ideia ridícula
que a gente tem
sobre gênero
e sobre sexualidade.
E se ninguém tivesse te dito,
desde criança,
que você deveria ficar com mulheres,
transar com mulheres,
se casar com mulheres?
Talvez você só procurasse pessoas
que gostassem das mesmas músicas que você.
Então eu olho para sua namorada.
Passo a mão em seu cabelo,
colocando-o atrás da orelha.
Eu me aproximo
e pergunto:
e se não tivessem te ensinado
quais pessoas deverias desejar,
quais corpos poderias tocar,
quais gêneros
e quantas pessoas deverias amar?
Será que essa aproximação
se tornaria uma possibilidade para você?
Ao divagar por um diálogo
que nunca foi vivido em carne e osso,
eu sinto essas palavras,
ditas por esse sistema,
aprisionando seus corpos.
E a imagem da igreja aparece.
Grande.
Imponente.
Transformando tudo isso
em pecado.
E se a gente tirasse tudo isso?
É o que eu venho fazendo
desde que nos separamos.
Tirando todas essas camadas
que foram me colocando
quando eu ainda era criança.
Eu deveria brincar de boneca.
Eu deveria cozinhar.
Eu deveria sonhar
com um príncipe encantado.
Eu deveria me casar.
Eu deveria ter filhos.
Um dia, uma voz começou
a ecoar dentro de mim:
será que eu não vivo
uma heterossexualidade compulsória?
Na verdade,
ela não disse bem isso.
Ela falou com bastante clareza,
bem alto,
dentro da minha cabeça:
Se você não sair daqui,
você vai morrer.
Logo eu,
que tantas vezes desejei
não estar aqui,
chorei sem conseguir parar.
Eu ainda não entendia
que não estar aqui
não era o mesmo que morrer.
Era não estar vivendo
a vida que eu estava vivendo.
E então
eu fui me descamando.
Me descamando.
Me descamando.
Me descamando.
Eu ainda estou nesse processo.
E, de fato, sim:
a heterossexualidade
foi algo compulsório.
E me passou pela cabeça
que talvez, com outro gênero,
fosse diferente.
E eu vivi.
Mas, de fato,
o casamento também
foi algo compulsório.
Coisas que foram implantadas
dentro de mim.
E está tudo bem
se alguém quiser escolher esse caminho.
Mas será que
a gente realmente escolhe?
Ou a gente só está seguindo a vida,
aquilo que disseram
que a gente tinha que ser,
que fazer?
Quem eu sou?
O que eu quero?
Hoje eu me vejo
como uma pessoa transviada.
Mas muitas vezes
ainda preciso vestir máscaras,
disfarces.
E na arte drag
encontro um refúgio.
Um lugar onde posso ser quem eu sou
e também quem eu quiser.
Mesmo que seja
por alguns momentos.
E por isso
eu precisei ir embora.
Precisava descobrir
tudo isso que eu sou hoje.
Eu me vago assim
pelas minhas lembranças,
pelas vozes da minha cabeça.
Agora sento na sala
em que um dia sentamos juntos,
com o nosso gato.
O que permanece
são esses pensamentos.
O que é gênero?
O que é sexualidade?
O quanto a gente realmente escolhe?
E o quanto a gente apenas segue
aquilo que disseram
que a gente deveria ser?

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