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Desmontar para se montar

  • 26 de jan.
  • 2 min de leitura

O dia começou difícil.

Olhei no espelho

e não reconhecia a imagem refletida.

Volumes que em outros corpos

vejo beleza,

no meu, não conseguia.

Tamanha a exaustão.


Meu rosto, não reconheço.

Quem é essa figura hoje?

Quem eu sou hoje?

Quem eu quero ser hoje?

Deusa? Paulão? Little Mystie? Paulette?

Nenhuma eu conseguia sustentar.


O peso parecia demais

pra um corpo que desejava se enclausurar.


Me maquiei,

não me reconheci.

me desmontei.

e naquele rosto desfigurado pelo demaquilante,

alguma beleza comecei a ver.


"Cabelo! Isso, vou cortar!"

Me senti um pouco melhor.

Vesti roupas confortáveis,

nas quais me sinto segure.

E fui vestide de mim mesmo.


"Maquiadore sem maquiagem?"

"Drag sem montação?"

"Nem cumprimenta. Mal educade.

Arrogante."

As vozes implantadas

ecoavam pelos cantos mais obscuros,

entranhados na minha carne.

Em um vai e vem,

que não parecia ter fim.


Cheguei de mansinho.

Com pouca energia e poucas palavras,

fui ocupando meu espaço.


Quando sentei,

olhei as cores.

Um silêncio ecoou.

Uma imagem segura veio à mente,

e maquiei meu rosto.

No meio dessa pintura,

uma drag, montada,

procurando um lugar para ser,

me trouxe um lugar de conforto

e reconhecimento.


Como agradecimento,

retoquei sua maquiagem.


Outra pessoa,

com seus cachos e brincos roxo-amarelo,

confiou seu rosto

para apoiar meus pincéis.

Como um abraço.


Trouxe mais um.

E depois, muitos rostos

confiaram em mim,

transformando face em tela,

maquiagem em pintura,

arte viva e efêmera.


Em meio ao mar de barulhos,

mesmo atordoade,

eu consegui ouvir as vozes.

Mas dessa vez,

eram vozes que me incentivavam.

Palavras foram como abraços.


Com maquiagem e afeto,

juntei meus cacos.

E me montei.


Montar para se desmontar.

Desmontar para se montar.

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